sábado, 19 de janeiro de 2013

Daí vem aquele momento em que você descobre que não sabe mais para que lado da cama virar sem que você pense nele. Lembrar de cada canto do apartamento e do cheiro de cigarro com balas ardidas e violão se tornou um vício. E a saudade é como aquela que a gente sente de gente que morreu, já que as lembranças (boas, disse ele, torturantes, disse eu) se perderam no encaixotar da vida. E às vezes parece que estou no tempo antigo, quando eu esperava ele aparecer na janela para sorrir com olhos de menino. De todo o pouco que não me restou, ando pisando duro pelos corredores, para você nao me ver cair.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Depois daquele som

Quando a gente dividia as ansiedades você não tinha esse olhar atravessado de angústia. Eu queria aquela sua ânsia de me ter e de meter, quando a gente conversava em silêncio sobre nossa alegria de termos nos encontrado. Depois do avião que foi e voltou, alguma coisa se perdeu em terra ou em mar e que te deixou com essa cara de quem tem o peito dolorido. As costas doem, mas elas somatizam aquilo que tem tomado conta do seu peito, do seu fígado, do seu estômago. E na minha brincadeira de ser adolescente, fico sonhando em ter um dia os seus olhinhos miúdos que me diziam que era eu quem poderia te fazer dormir em paz.
Maybe you're the guy amazed
but you don't know how to escape
Your world is like happiness
but you don't know how to start
You run away from the loneliness
but all you've got is a cave
It doesn't matter all the bricks
the cave is deeply dark

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

about distance

de todo o amor que você diz me dar
guardo somente aquele que me faz
lembrar
que o Sol no nordeste se põe mais cedo
.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

7 estados acima

Se sentisse a intensidade de mundo que vive aqui dentro, o ir sem pensar em voltar não seria tão desmedido. Uma mulher sustentando por duas vidas o peso e as sobras de um amor-cumplicidade, colorindo de branco-constelação e rosa-esperança o (seu) caminho de volta pra casa. A espera é uma espécie de suicídio quando o que está dentro parece não caber fora, no espaço-tempo agonizante – quando o seu ir é sinônimo do meu ficar. E só você entende o casulo em que nos fechamos por desgosto do que não é nossa paz, nossa busca-vida-simples, nossa eterna inocência em acreditar no amor primitivo. Na nossa coragem necessária de buscar. E continuar a viver simplesmente.

Enquanto uma promessa não feita e nem desfeita sustenta todo o sonho-sol-mar-azul de te encontrar antes que o tempo se dissolva.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

O querer

o querer ou a sutil vontade do querer, que se confunde nos projetos de desejo. cada centímetro inexplorado do seu corpo, que tanto meu foi. tão vazio de mim cheio de si. e eu cheia de mim, procurando por entre as possibilidades do viver, acertar aquela intensidade prometida, como promessa desfeita, com prazo de validade. aquela intensidade suspensa no ar, seguindo a vontade do vento, que ninguém sabe onde nasce e para onde vai. o querer ou a sutil vontade do querer estar. que não está, no entanto. que não é, no entanto. que apenas respira em um profundo sono de aconchego. Toda um emaranhado de sentimentos desencontrados e desprogramados – que tentei explicar. E é para explicar?, você disse. e eu respondi que não, mas aquela nossa intensidade perdura vazia no tempo e no espaço.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Guitarra e Ossos Quebrados – Quique Brown

Eles juntaram todas as economias, arrumaram as poucas mochilas, pegaram seus instrumentos e embarcaram em direção à Europa. Em Guitarra e Ossos Quebrados, Quique Brown, vocalista do Leptospirose (Bragança Paulista), relata em um diário de bordo cada momento da turnê de sua banda junto com os capixabas do Merda por terras européias essencialmente punks. De pepinos no café da manhã e shows em squats até noites mal dormidas e um acidente de van que colocou fim à empreitada, todos os episódios estão reunidos em um livro escrito sem nenhuma pretensão de ser literário, mas, ao mesmo tempo, curioso, envolvente e, melhor ainda, recheado de fotos. O exemplar pode ser adquirido pelo site da Laja Records.
Läjä Records. Espírito Santo. 2007

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Uma conversa franca

Fico muito triste com o que vocês falam dele por aqui. Vocês dizem que ele é ditador, mas para a gente ele não é. Os pais sempre fazem de tudo por seus filhos, desejando o melhor a eles, mas nem sempre o resultado é aquilo que esperam. E o Fidel é assim. É como um pai para o povo cubano, sempre pensando em nosso bem. Sabemos que tudo o que ele faz é em benefício de seu povo.

Os jornais mostram, com freqüência, imagens de cubanos tentando fugir de seu país em direção aos Estados Unidos, em barcos mal construídos, enfrentando tempestades marítimas e correndo risco de vida. Mas o que nunca dizem é que muitos desses cubanos possuem familiares vivendo nas terras do Tio Sam mas não podem fazer sequer uma visita, já que têm seus vistos negados não por Fidel, mas pelo governo estadunidense. Nós não somos proibidos de sair de Cuba, mas sim de entrar nos EUA.

Dizem que somos um povo atrasado e sem liberdade, porque nosso presidente, para vocês um ditador, proíbe o uso da internet. Mas ninguém conta que o sinal necessário para o uso da rede foi cortado pela maior empresa do mundo: a Microsoft. Não é o Fidel que nos proíbe, é o Bill Gates.

As ruas de Cuba são esburacadas, o transporte é um caos. Sabemos que há ainda muita coisa a ser feita por Cuba, temos muitos problemas, mas não podemos nos esquecer de certas coisas. Dá para esquecer que temos 85% da população com diplomas universitários? Não dá. Dá para esquecer que qualquer pessoa doente é atendida imediatamente e de graça pelo serviço de saúde? Não dá. Se eu fico grávida e quero ter o meu bebê, vou a qualquer hospital e tenho todo a assistência necessária gratuitamente. Dá para esquecer? Não dá.

Nós não pagamos a Universidade. Fico chocada com o que vejo aqui: meninos de 18 anos trabalhando o dia inteiro para poder pagar a faculdade. Quem é que consegue estudar devidamente depois de um dia inteiro de trabalho? Em Cuba ninguém precisa trabalhar para pagar os estudos. Lá há tempo para estudar, para crescer, para viver. Aqui não.

Aprendi duas palavras no Brasil: stress e depressão. No meu país não existe isso. Somos um povo que vive da luta, como é que vamos ter depressão? Não sabemos o que isso significa. Todas as nossas crianças estão nas escolas e brincam com qualquer coisa que lhes for dada. Aqui, saio do trabalho e vejo muitas delas na rua, passando fome, enquanto outras só são felizes com brinquedos de última geração. É a mentalidade do consumo, que não existe para nós.

No dia em que o Fidel renunciou, cheguei ao serviço e me falaram: “Finalmente vai ter democracia em Cuba”. Simplesmente respondi: “Se for para termos a democracia de vocês, não queremos”.

Cuba é um país complexo. Tem que saber olhar para ela. Vocês não entendem o que acontece lá, porque há uma grande diferença de mentalidade. Com Raúl agora na presidência estamos vendo acontecer algumas mudanças que estávamos esperando há tempos. O povo está confiante nele. O problema é que ele também está velho e logo não o teremos também. E os cubanos têm medo. Medo do que vão fazer com a gente. Mas enquanto Fidel vive, sabemos que estamos protegidos, mesmo com ele sendo hoje apenas um combatente das idéias. Para mim, ele poderia ser para sempre.

Este texto é uma tentativa de recriar o que ouvi de uma cubana esses dias. As palavras são minhas, mas as idéias são dela, que começou a falar sinceramente e sem parar para respirar, como alguém que precisava ser ouvida. Tentei relatar fielmente tudo o que eu ouvi. Ela me pediu que, como jornalista, eu desmistificasse o que insistem em confirmar. Esse texto foi o meu primeiro passo.