quinta-feira, 28 de junho de 2007

Para sapatear

Garotas e garotos do mundo,

Para quem não sabe, rola muito evento por aí nos becos undergrounds da cidade e que, para variar, a grande mídia nunca noticia. Pode conferir: é show, festival, mostras e debates que estão sempre acontecendo, tentando se manter de uma forma ou de outra, contando sempre com o apoio de um pessoal fiel que sempre marca presença. Longe de casas de shows espetaculares e bonitos e limpinhos espaços de artes, a “cena alternativa” (não sou muito fã dessa expressão) tem dado muitos e bons frutos.

Todo esse blá blá blá é para convidá-los para o Sapa Fest!, um festival organizado por riot grrrls (minha porca definição de uma linha: “meninas punks e feministas”), que irá reunir cinco bandas de garotas em uma noite só – bandas muito boas, politicamente engajadas e bem colocadas, diga-se de passagem. São elas: Dominatrix (a maior representante brasileira do movimento riot grrrl), dividindo o mesmo repertório com Santa Claus e mais os shows de Bonsai Kittens, Anticorpos e SA44. Enquanto uma banda sai e a outra entra, as Djs Sapas Dragas serão as responsáveis por não deixar a música parar. Mas, apesar do festival ter o público feminino em peso, garotos e homens, irmãos, namorados, primos, pais e avôs também serão bem-vindos, afinal, a mulherada não quer jogar os homens para escanteio, mas tentar fazê-los entender que também temos nosso espaço e que nossa luta é conjunta.



Sapa Fest!
Quando: 8 de julho, às 19h – domingo
Quanto: R$10,00 (antecipados) e R$12,00 (na porta)
Onde: Hangar 110 – Rua Rodolfo Miranda, 110 – Bom Retiro (travessa da Tiradentes)

Conheça as bandas:

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Senhorita boa de briga

Professora de boxe tailandês dá o exemplo de atitude e determinação em um espaço onde as mulheres ainda precisam se auto-afirmar

Andressa, ao meio, com suas alunas do Lady's Thai

Por mais que hoje pareça que chegamos ao ápice do nosso desenvolvimento, vivemos em um mundo onde as mulheres ainda são estereotipadas como símbolos da fragilidade e da sensibilidade e onde o masculino ainda impera no que diz respeito, também, à força. Andressa Saboya Prado, 22 anos, é uma dessas figuras que vêm para quebrar esses padrões machistas, difíceis de serem diluídos.

Natural da cidade de Santos, Andressa é professora de uma das artes marciais vistas como das mais violentas no ocidente: o Muay Thai. Conhecida como a “ciência dos oito membros” - por trabalhar com punhos, cotovelos, joelhos e pés – essa luta tem mais de dois mil anos de história. Assim como o futebol é nosso esporte nacional, o Muay Thai, também conhecido como Boxe Tailandês, é o esporte nacional da Tailândia. Conta-se que essa prática foi desenvolvida por camponeses e agricultores para defender a terra e o povo das ameaças de invasões constantes e que, inclusive, questões de política nacional foram decididas em lutas. Diferentemente do que poderia se imaginar, o treinamento sempre foi dado a todos: pobres, ricos, jovens, velhos, soldados e reis. Menos às mulheres. Antigamente era-lhes proibido chegar perto de um ringue, pois, sendo ele um país budista, havia um mito de que a presença delas era uma afronta às forças espirituais que protegiam o palco das disputas. Elas trariam azar aos lutadores e também aos espectadores das lutas.

Depois de muitos anos e avanços, hoje o Muay Thai não é mais restrito aos homens, mas o preconceito ainda reside de algumas formas. A luta feminina é muito nova e hoje, na Tailândia, as mulheres têm o próprio campo de treinamento, onde não se misturam com os homens. Aqui no Brasil, essa mistura existe somente em treinos, não em competições, mas ainda há a visão de que a luta é violenta demais para ser praticada por mulheres. Andressa, que já treinou vôlei, basket, handball e futsal, começou a lutar com 14 anos e diz que quando pisou pela primeira vez na academia para treinar, viu apenas um monte de homens sem camisa, suados, correndo para o aquecimento. “Não existia mulher treinando”, completa. O preconceito que sofreu foi no sentido de subestimarem sua força antes mesmo de senti-la ou de vê-la treinando. Isso a incentivou para que ela continuasse e se tornasse graduada em Boxe Tailandês.

Apaixonada pelo que faz, Andressa lutou muito ao lado de homens, ajudou bastante em treinos e, segundo ela, já ensinou “muito marmanjo por aí”. Então, resolveu montar uma equipe de treinamento para mulheres, o Lady’s Thai. A motivação foi a idéia de poder ensinar outras garotas a fazer a mesma coisa que ela, mas aprendendo com uma mulher, “algo que eu não tive”, explica. No início, a dificuldade era conquistar a confiança de meninas, que hoje são suas alunas, a acreditarem que ela estava ali pra fazer o que gostava e que realmente queria o progresso delas. Com o tempo essa confiança foi conquistada, e hoje Andressa dá aulas tanto em Santos quanto em São Paulo. A procura pelas aulas varia, tendo crianças e mulheres de mais idade com interesse pelo Muay Thai, mas a predominância é de jovens estudantes que encontraram um esporte onde podem ter seu espaço.

A luta para as mulheres não se diferencia praticamente em nada da que é ensinada aos homens. A única diferença se dá na utilização da aparelhagem: apenas na hora do treino com mais contato as garotas colocam um peitoral de proteção. Andressa gostaria de treiná-las para competições, mas é preciso insistir muito nisso, já que o esporte é bem cansativo e exige muita dedicação. “Mas já tive aluna que entrou dizendo que queria que eu a treinasse para subir no ringue”, afirma.

Depois de muitos anos dedicados ao seu aperfeiçoamento pessoal e ao ensino da luta, Andressa diz que hoje as pessoas a respeitam bastante, tanto pela graduação que tem, que não pode ser facilmente conquistada, e por ela realmente ter seu espaço para mostrar o que sabe e ensinar o que pode. Para ela, o crescimento na procura de mulheres pelo treinamento, assim como o respeito que adquiriu no meio, são o reflexo de que as mulheres estão cada vez mais se impondo na sociedade e quebrando tabus. “Estão cada vez mais corajosas”, conclui.

Hoje, o Muay Thai é uma das artes marciais mais usadas em termos de treinamento de segurança e autodefesa e, além de trazer um benefício mental e físico completo, “o poder de autocontrole sobre seu corpo, o crescimento e perceber que, cada vez mais a pessoa fica externa e internamente mais forte” é o que mais fascina a jovem professora. Que dá seu recado final: “Que haja sempre humildade, respeito pela arte marcial e pelo seu professor, não apenas levar como um treino comum e, sim, como um acréscimo interior, ajudando a ser a mulher que deseja”.

Curiosidades:
* Na origem, Muay = arte e Thai = livre ou pertencente à Tailândia.
* A luta chegou ao Brasil por volta dos anos 70, mas somente nas últimas décadas passou a ser mais popular.
* As faixas de graduação são chamadas Kruang e vão do branco (iniciante) ao preto (professor)
* As mulheres devem entrar no ringue pelo meio ou pelas cordas de baixo e não pelas cordas de cima, assim como fazem os homens.
* Na Tailândia, as lutadoras ainda não ganham as mesmas bolsas (em dinheiro) que os homens. Assim, a maioria continua trabalhando em outras atividades ou ainda tendo que conciliar as atividades domésticas com os treinos e lutas.

Lady’s Thai
Mazo Academia
Av. Pedro Lessa, 930 – Santos - SP
Academia Arena Fight Gold Team
Rua Augusta, 775, São Paulo - SP
Comunidade no Orkut:
http://www.orkut.com/Community.aspx?cmm=9450868

segunda-feira, 4 de junho de 2007

É possível mudar o mundo sem tomar o poder

Evento reúne representantes de movimentos sociais para discutir a mídia

Realizada entre os dias 28 de maio e 1° de junho, a Semana de Jornalismo da PUC-SP, evento anual do curso de Jornalismo da Universidade, reuniu professores, alunos e diversos representantes de agências de comunicação, ONG’s e outras entidades durante uma semana, ao longo de todo o dia, para discutir o tema “O Compromisso do Jornalismo na Nova Realidade da América Latina”.

Na quarta-feira, 30 de maio, no período da manhã, o debate “Os meios de comunicação e os movimentos sociais na América Latina” deu um bom panorama de como se comporta, hoje, a grande mídia e de como ela se coloca frente aos movimentos sociais.

Com a mediação do professor Sílvio Mieli, a mesa contou com a presença de João Batista de Oliveira, membro da nacional executiva do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Alejandro Buenrostro, integrante do Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) e Lúcio Flávio de Almeida, professor da PUC-SP. Todos se posicionaram de maneira semelhante quanto ao papel desempenhado pela imprensa, mas com enfoques diferentes: cada um tratando da visão do movimento que estavam representando.

João Batista de Oliveira, como representante do MST, deu início ao debate já com um discurso acalorado e revolucionário. Segundo ele, a grande mídia trata todas as ações do movimento como “invasão”, palavra de cunho ideológico, quando, na verdade, se trata de “ocupação”. Mais de 50% das terras cultiváveis do país estão nas mãos de menos de 1% da população, ou seja, o povo está sendo destituído do seu direito à terra. “nós sabemos quem são os verdadeiros invasores”, afirmou Batista.

O trabalhador do campo sofre todo o tipo de violência, seja moral ou social, e a mídia não cumpre com a sua responsabilidade de divulgar essas dificuldades, como o trabalho escravo ou mortes por péssimas condições de trabalho, principalmente por estafa, mas destina um grande espaço àquilo que é ligado ao capital internacional e às empresas multinacionais. Como, por exemplo, a questão do etanol, agora nas principais pautas da mídia. “O Brasil está sendo vendido e isso a imprensa não noticia”, disse Batista, afirmando em seguida que isso acontece devido ao fato de que as grandes empresas de comunicação se posicionam nitidamente contra os movimentos sociais e, assim, cumprem o papel de descaracterizar e desmoralizar esses movimentos, “tentando aniquilá-los”.

Para ele, as ocupações que o MST realiza, são uma forma de comunicação com a sociedade, pois é nela que esses movimentos se legitimam, não na mídia. Segundo o militante, não se pode contar com o apoio da imprensa, tanto o MST quanto qualquer organização com posição anticapitalista, já que os grandes meios de comunicação exercem “um diálogo ideológico de criminalização dos movimentos sociais”. Sobre a concentração dessas agências noticiosas nas mãos de poucas famílias, fato sintomático do Brasil, Batista afirmou que se trata da expressão da concentração de riquezas no mundo e que essa imprensa impõe a “ditadura da realidade”, ela nos faz “engolir uma realidade que não existe”. E concluiu: “Não esperamos o elogio da mídia, confiamos na nossa capacidade de transformar a sociedade”.

Para dar mais peso ao debate, na seqüência Alejandro Buenrostro, do EZLN, antes mesmo de atacar a imprensa, fez um panorama da situação do México e de como a mídia alternativa e também a ligada aos zapatistas tiveram um papel fundamental na construção política do país. Segundo ele, o México possui uma imprensa “de engano e de simulação”, onde a população não tem voz e “a verdadeira notícia se dá por meio da mídia alternativa”. Os zapatistas, um movimento de insubordinação social indígena de origem maia, para conseguir o apoio da massa e sua legitimidade na sociedade, contou com a ajuda de cartas, comunicados e, principalmente, com a internet e jornais alternativos desenvolvidos pela própria população, como o La Jornada e a revista O Processo. Foi por meio deles que os zapatistas conseguiram tornar visível o movimento de Chiapas, reunir os rebeldes e incitar a população a tomar as armas, ou seja, “criou uma tomada de consciência”.

A preocupação de Alejandro não é em destruir a mídia imperialista, mas sim dar espaço e investir na imprensa alternativa, exercendo uma comunicação ética, verdadeira e coerente. “Vamos dialogar aqui embaixo, onde está o povo! Vamos democratizar embaixo e à esquerda, longe do capital!”, bradou o militante, concluindo com sua frase mais revolucionária da manhã: “é possível mudar o mundo sem tomar o poder”.

Finalizando as falas, o professor Lúcio Flávio, que se desculpou por não ter algo empírico a contar, elaborou um discurso um pouco mais teórico e bastante carregado de conceitos marxistas. “Os movimentos sociais são expressões da luta de classes”, iniciou. E emendou: “nunca teve tanto capitalismo no mundo e com ele se expande o processo de proletarização que se planetariza”. A partir disso, desenvolveu uma crítica às comunicações e ao sistema capitalista baseada no fato de que essa massa proletarizada não está nas fábricas, mas é composta por desempregados e que, muitas vezes, se encontram em condições de miséria. Isso faz com que ou aceitem sua própria condição e continuem vivendo miseravelmente, ou se rearticulem em movimentos sociais. “Os movimentos sociais são ricos porque oferecem novas perspectivas de democracia”, afirmou. Segundo o professor, vivemos em uma democracia burguesa baseada na mercantilização das relações e isso se reflete também na mídia.

Partindo para o âmbito das comunicações, a título de exemplo, Lúcio Flávio se utilizou do mais representativo veículo da grande mídia que temos hoje no Brasil: a revista Veja. A cada página folheada mostrada aos presentes, o professor foi desenvolvendo seu argumento de que a comunicação se detém estritamente no processo de consumo, ignorando o processo de produção. De folha em folha, um mundo bonito e limpo é apresentado, seja nas matérias ou seja no excesso de propaganda de beleza e carros. E quando os movimentos sociais conquistam o mínimo de espaço nesse tipo de mídia, ele é mostrado como sujo, “como um movimento de ratos”. Segundo Lúcio, o leitor é interpelado como consumidor e a mídia dominante, além de não informar, não possui nenhum projeto para o país, diferentemente do que acontece com muitas publicações alternativas de movimentos sociais. Finalizando a mesa do dia, o professor retomou a questão do uso das palavras “invasão” e “ocupação” antes discutida por João Batista: expôs que não se trata somente de uma luta semântica, mas político-ideológica, entre aquele que crê em um mundo melhor e o que crê no capital.

Não fosse o tempo restrito que havia para a atividade e o cansaço já aparente dos presentes, que estavam por lá há quase três horas, as palestras poderiam durar o dia inteiro, gerando as mais acaloradas discussões e propostas para o futuro da imprensa no Brasil e no mundo. Porém, a mesa teve seu fim, mas deixou uma semente de indignação naqueles que pretendem mudar o mundo - sem que seja preciso tomar o poder.

terça-feira, 22 de maio de 2007

Meu país é o mundo inteiro

Clássico de Virginia Woolf é uma das maiores expressões do feminismo na literatura

Se tivemos um século XIX em que a mulher estava consagrada à função de reprodutora, o século seguinte é considerado o triunfo do sexo feminino. Uma época de revolta das mulheres, contra a dominação masculina, contra a idéia arraigada de que as mulheres são anjos a serviço das necessidades e do conforto dos homens. Tempo que deu, enfim, nascimento a mulheres escritoras, romancistas, poetas, críticas de arte e pesquisadoras. Com este pano de fundo que se insere a escritora Virginia Woolf, uma das mais importantes e sensíveis precurssoras do feminismo.

“Como mulher, não tenho país. Meu país, como mulher, é o mundo inteiro”, disse certa vez a escritora inglesa, que imprimiu sua marca de luta feminista de diversas formas no mundo da literatura. Desde publicações de resenhas em jornais até seus grandes romances, Virginia Woolf sempre cultivou um espaço para expressar sua discordância com o mundo patriarcal perpetuado ao longo das gerações. Declaradamente defensora de que a mulher tem o direito à independência financeira, à educação e à contracepção, Virginia não poupou esforços e muito menos palavras. Nascida ao final do século XIX e tendo o auge de sua vida e da sua produção literária no início do século XX, viveu o fim de uma época em que as mulheres escritoras ainda procuravam esconder-se sob um nome masculino, já que era o homem quem detinha e autorizava o acesso à escrita. Tendo as palavras como aliadas, a escrita foi sua forma de lutar contra uma vivência de submissão e conquistar um espaço para a fecundação intelectual e literária.

Mrs.
Dalloway, uma de suas obras mais importantes, que inclusive serviu de inspiração para o filme As Horas, foi publicado em 1920, um ano após as mulheres conquistarem o direito ao voto na Inglaterra. Fortemente influenciada por essas efervescências históricas, Virginia criou um romance em que as concepções e comportamentos de uma época são retratados na história de um dia na vida de uma mulher, Clarissa Dalloway, uma mulher habitada por angústias.

As personagens são traçadas de maneira definida, onde o homem e a mulher dividem o mesmo espaço, cada um exercendo o papel que a sociedade lhes concedeu. Mas é a mulher quem se destaca, pois parece que apenas ela tem a capacidade de sentir a vida, é ela quem tem emoções, pensamentos e questionamentos, como se houvesse espaço para ela no mundo. E as diversas personagens femininas que vão aparecendo ao longo da obra mostram, cada uma, uma faceta da condição da mulher, ora em comportamentos de submissão e desvalorização, ora em momentos de afirmação da autonomia e independência do feminino.

Enquanto Rezia é a personificação da submissão feminina – quando devota sua vida inteira e seus desejos ao marido Septimus, sentindo a necessidade de ter filhos não por querê-los, mas por uma exigência social – Sally Senton e Lady Bruton são o retrato da potencialidade feminina. A primeira, que desperta um sentimento estranho a Clarissa Dalloway, é apresentada como uma mulher audaciosa e temerosa: “absurda… completamente absurda (…), como se pudesse dizer o que quer que fosse, fazer não importa o quê”. Já Lady Bruton surge como uma exceção à condição feminina, mas ainda presa às amarras e poderes masculinos. Envolvida com política (exercício antes negado ao sexo feminino), tem uma visão crítica das mulheres, ela é “forte e marcial, próspera, bem-nascida, de impulsos diretos, de sentimentos positivos e escassa introspecção”, porém seu aparente desprendimento da submissão da mulher se revela superficial, quando por trás dela há a figura do homem, quando ela fala “como um homem” ou quando precisa da ajuda de um para poder redigir uma carta, já que questiona: “poderia o seu próprio pensamento revestir-se de tanta eloqüência?”.

A visão masculina das mulheres é encarnada em outros personagens, principalmente no solitário Peter Walsh, que, sofrendo de um amor não correspondido, descreve as mulheres como insensíveis, como seres diferentes dele e que não sabem o que é a paixão.

Mrs.
Dalloway é um eco de muitas das controvérsias que habitaram o meio intelectual londrino durante os anos 20, entre eles a questão do papel da mulher. A crítica social de classes, a burguesia e os efeitos da guerra também merecem o devido destaque, assim como a escrita singular de Virginia Woolf, que trouxe para a literatura uma inovadora forma de escrever: o fluxo de consciência. Porém, sua marca está, não só em Mrs. Dalloway como em toda sua obra, na ênfase ao feminino, na mulher, em sua condição e em suas lutas. Um verdadeiro contrapeso ao discurso masculino.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

O Papa é pop, mas não papa ninguém

Que o Papa é pop todo mundo já sabe. Mas não falo daquele nazistinha que esteve por aqui dias atrás, mais conhecido como Bento XVI. Esse daí já cansou todo mundo. Falo sobre um também pop e muito íntimo das mulheres: o papanicolau.

Também conhecido entre os médicos por Colpocitologia oncótica, o papanicolau é um exame preventivo do câncer de colo de útero, que toda mulher deve fazer ao menos uma vez por ano.

Hoje, em todo o mundo, mais de 650 mulheres morrem por dia em consequência desse tipo de câncer. E as vítimas não são apenas as de mais idade, meninas jovens também são atingidas. Ele é o terceiro fator cancerígeno mais comum entre as mulheres, sendo superado somente pelo câncer de pele e pelo câncer de mama.

Normalmente, após serem realizados 3 exames anuais, a paciente com baixo risco fica livre para realizá-lo com menos freqüência. Porém, aquelas com pelo menos um fator que possa desenvolver o câncer do colo de útero, devem continuar se submetendo ao exame anualmente.

As mulheres não gostam de realizar o papanicolau, às vezes por vergonha, às vezes por ser extremamente incômodo, mas é essencial que seja feito, pois ele pode detectar outras doenças uterinas antes mesmo de um câncer se desenvolver.

O exame completo inclui primeiramente a palpação das mamas (para detectar o câncer de mama) e depois é introduzido na vagina um espéculo que possibilita a visualização do colo do útero. Em seguida, com uma espátula laminosa, o médico recolhe o material da parede uterina, que será enviado para um laboratório e depois analisado. Ele deve ser realizado pelo menos uma semana antes da menstruação, e devem ser evitadas duchas vaginais, colocação de cremes e relações sexuais três dias antes.

Podem ser causas de câncer: início precoce da atividade sexual, número elevado de parceiros sexuais, ter tido vários filhos, tabagismo, antecedentes de doença sexualmente transmissível e falta de higiene pessoal. Mas o principal causador disso tudo, em 90% dos casos, é um vírus conhecido como HPV (Papiloma Humano), uma DST que pode ser evitada, principalmente, com o uso de preservativos. Já existe, inclusive, uma vacina contra alguns tipos desse vírus, mas não custa prevenir.

Depois de toda essa chatice, há uma notícia boa: o papanicolau é oferecido gratuitamente pelo sistema público de saúde em qualquer unidade básica do SUS (Sistema Único de Saúde) e também em todas as faculdades de Medicina do Brasil.

Mulherada, ele tem nome de Papa, mas ao contrário desses sujeitos que vivem no Vaticano, ele pode salvar a vida de todas nós.

Instituto Nacional de Câncer: www.inca.gov.br

terça-feira, 15 de maio de 2007

Por uma alimentação politicamente correta

Mais do que um comportamento saudável, o vegetarianismo pode ser uma prática política

Antes tido como uma prática exótica, o vegetarianismo tem sido cada vez mais assumido como uma dieta essencial na vida das pessoas, seja de grandes centros urbanos, seja do interior ou de pequenas comunidades. Diversas são as publicações que tratam da alimentação vegetariana, assim como a quantidade de restaurantes especializados, que ao poucos vão se multiplicando, o que sugere o aumento contínuo da quantidade de adeptos.

A opção por uma alimentação livre de carnes (de aves, peixes, suínos e bovinos), ou de qualquer derivado animal (a alimentação vegana), pode ter inúmeras causas. Cada pessoa tem a sua em específico, que pode ser por motivos de saúde, religião, por respeito à vida animal e até mesmo por motivos mercadológicos, ou seja, por combate à indústria da carne.

De certa forma, todas essas causas estão interligadas, mas talvez a que seja menos levada em consideração é aquela que vai contra os interesses empresariais e contra a geração de lucros: a indústria da carne. É interessante, por exemplo, como o número de revistas especializadas em receitas vegetarianas é grande, porém, sempre enfocando a saúde, ou seja, aquilo que faz bem para o corpo do ser humano. Para se ter uma idéia, em uma das melhores livrarias brasileiras, são encontradas mais de 100 publicações com o tema “vegetariano”. E guias na internet com endereços de restaurantes vegetarianos são infinitos. Mas as questões ambientais, empresariais e de respeito à vida animal, são freqüentemente deixadas de lado. E estes deveriam ser, talvez, os maiores motivos para se levar o vegetarianismo a sério.

Assim como acontecia com os escravos, os animais são hoje tratados como simples mercadorias. Na condição de coisas, eles devem ser tão rentáveis quanto possível. Para se ter uma idéia, são mortos todos os anos mais de 8 bilhões de animais (16 mil por minuto), só nos Estados Unidos – o maior consumidor. O Brasil é um dos principais países exportadores de carne, onde, segundo Associação Brasileira da Indústria Produtora e Exportadora de Carne Suína - ABIPECS, existem cerca de 200 frigoríficos, responsáveis pelo abate de 36 milhões de suínos só em 2005. No mesmo ano, foram exportadas 9,2 milhões de toneladas de frango e 8,8 milhões de toneladas de carne bovina. Uma verdadeira indústria da morte altamente lucrativa. Segundo o Manifesto pela Libertação dos Animais, desenvolvido pelo professor de direito da Universidade de Rutgers (Nova Jersey), Gary Francione, “O 'sofrimento’ dos proprietários, por não poder usufruir a 'propriedade’ a seu bel-prazer conta mais do que a dor do animal”.

Para que essas empresas tenham esse alto desempenho, chegando a números elevadíssimos em sua produção, logicamente a estrutura delas é proporcional ao que produzem. Assim como o impacto que causam no mundo, desde poluição e desmatamento até o consumo elevado de água. Em números: os animais criados para corte produzem 130 vezes mais excrementos do que toda a população humana e um abatedouro de suínos típico gera excrementos equivalentes a uma cidade com 12.000 habitantes. Do total do solo cultivável, mais de 80% são utilizados para a criação de animais de corte; para alimentar um carnívoro, é necessário um terreno 20 vezes maior do que para alimentar um vegetariano. Sem contar o problema da água, já que a criação desses animais consome mais da metade de toda água utilizada no país. São necessários 9.463 litros para se produzir meio quilo de carne, sendo que apenas 95 litros produzem a mesma quantidade de trigo.

Os animais criados para a comercialização são alimentados com grande quantidade de vegetais e outros tipos de alimento, como a soja, que exigem grande área para sua plantação, o que é hoje responsável pelos maiores desmatamentos que temos no país. Ao contrário do que pensa a maioria das pessoas, a maior parte da soja plantada hoje no Brasil não se destina à alimentação humana, mas sim à alimentação de animais como bovinos e suínos, o que acaba por serem os próprios animais a causa de toda essa devastação. Certamente, se o consumo de carne pelos humanos não fosse tão elevado, a poluição do ar, da água e a destruição do ecossistema e dos recursos naturais não seria tão intensa.

E, além do problema do meio ambiente, essa estrutura montada para manter toda a indústria da carne acaba, mesmo que indiretamente, sustentando, ou se eximindo de pelo menos ajudar a resolver a questão da fome no mundo. Isso porque um terço da comida do mundo é utilizada para alimentar gado e outros seres para o abate. Esses animais consomem uma quantidade imensa de vegetais que poderiam nos servir diretamente de alimento. Se consumíssemos os grãos que cultivamos em vez de dá-los aos animais que futuramente também se tornarão comida, talvez estivesse resolvida, pelo menos em parte, a escassez de alimento no mundo. Para se ter uma idéia, 100 acres de terra produzem carne para 20 pessoas, mas trigo suficiente para alimentar 240. Seria praticamente impossível o planeta fornecer alimento para toda a população humana, se em todos os países as pessoas tivessem uma alimentação semelhante à da Europa e dos EUA – repleta de produtos de origem animal.

Para se manter vivo, o ser humano precisa se alimentar e, sendo esta sua atividade vital, a comida é facilmente passível de exploração pelos interesses do capital comercial mundial, como as grandes companhias multinacionais agrícolas, necessárias para manter esse meganegócio chamado agro-business. Assim, a indústria da carne, uma das questões discutidas dentro do vegetarianismo, praticamente não é levada a público, já que, se colocada em pauta, pode ferir os interesses comerciais dessas empresas multinacionais e, conseqüentemente, do governo. Muito mais do que um tema ignorado, o vegetarianismo não interessa como uma política governamental, ou seja, não tem e possivelmente não terá nenhum tipo de incentivo enquanto não tiver a potencialidade de gerar os altos lucros que a indústria da carne é capaz. Afinal, criar atritos com os maiores empresários brasileiros, ou de qualquer outro país, não faz parte dos planos de nenhum governo, que em qualquer lugar se preocupa somente com o dinheiro e o lucro.