Seca, de um verde queimado, quente, plana. Brasília é assim. E é também o berço de importantes bandas de rock, como Legião Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude e Raimundos. Mas elas ou acabaram ou andam criando coisas estranhas por aí. O que está acontecendo na cena rock de Brasília hoje?
Bandas independentes é o que não faltam. De hardcore, punk ou trash, elas existem aos montes e vão cada vez mais surgindo novas. Em nossa rápida passagem por lá (dois dias de shows) conhecemos lugares e pessoas que mantêm a cena alternativa de pé com muita dedicação. É o caso de Totórs, vocalista do Innocent Kids, que além de organizar diversos shows e abrigar paulistas em sua casa, também cuida de uma distro.
O show organizado por ele no Galpãozinho Gama, na cidade satélite de Gama, teve oito bandas, sendo seis de Brasília. Foram elas: Massacre Bestial, Low Life, Innocent Kids, Utgard Trolls, Orgy Of Flies e Terror Revolucionário. Pessoalmente, dou destaque ao Utgard Trolls, punk pesado, tendo uma mulher na linha de frente com um dos vocais femininos mais fortes que já vi: rouco e agressivo. O Terror Revolucionário também merece atenção, já que além de ter mais de 10 anos de banda, faz um som rápido de conteúdo contestador. A curiosidade é que o Barbosa, guitarrista da banda, serviu seis anos na Aeronáutica.
Há duas horas de Brasília, em Goiânia, o segundo e último show, no Capim Pub. Uma casa (literalmente uma casa, que tem inclusive poço nos fundos) pequena, com espaço para os shows que chega a ser menor que muitos estúdios e que, mesmo assim, não impediu que fossem os shows mais nervosos e animados, com muitos punks na roda, pogando e cantando. O esquema toda improvisado, como o balcão do bar feito de tijolos e tábuas empilhados, reflete a vontade de sempre querer manter um espaço para a música alternativa, mesmo que de maneira precária. E mesmo assim, o lugar encheu.
Talvez essa tenha sido uma lição de que não podemos nunca julgar um lugar por aquilo que nos transmitem na televisão. Assim como o Rio de Janeiro não é somente favelas e traficantes, Brasília não é apenas Palácio do Planalto e engravatados. Existe população com voz ativa, que produz fanzines, cria bandas e organiza shows. Uma voz que sabe atacar o poder.

