quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Em romance: o feminino atemporal

O lançamento foi em 1973 mas poderia ser uma das últimas publicações de qualquer editora brasileira. As Meninas, de Lygia Fagundes Telles, é daqueles romances que, de uma maneira ou de outra, encontram seu lugar no espaço e no tempo, independentemente de quais sejam: mexeu com a juventude dos anos 70 e ainda tem o poder de fisgar leitores contemporâneos, devido a sua atualidade.

O momento histórico pelo qual passava o Brasil: a década de 60. A história é sobre três meninas universitárias que vivem no pensionato Nossa Senhora de Fátima, em São Paulo, absorvendo os acontecimentos da época em seus cotidianos. Lorena Vaz Leme, Lia de Melo Schultz e Ana Clara Conceição são as responsáveis por conduzir um enredo que vai desde banais conversas entre elas até idas a festas e projetos de fuga, contados sob a ótica de cada uma das personagens, diferentes em origem, posição social e personalidade, mas amigas.

Lorena é a delicadeza em pessoa. Vive dentro de seu quarto com discos, chás e divagações acerca da vida e do amor misterioso, chamado por ela de M.N. Lia, mais conhecida por Lião, é uma estudante de Ciências Sociais que vive às voltas com manifestações, livros, debates, ações políticas e com a preparação para a revolução, que cedo ou tarde virá. Ana Clara é uma linda modelo que se perde em sua beleza e se encontra em drogas e mentiras.

Drogas e mentiras. Masturbação, plástica, casamento e relações homossexuais. Assuntos muito atuais, mas que Lygia Fagundes Telles teve peito de abordar em plena década de setenta, época em que o Brasil passava por uma das piores fases da ditadura militar, com perseguições, prisões, exílios e mortes. Aí está a genialidade da escritora, que se desvenda no ato de trazer sutilmente à tona temas de certa polêmica sem que causem desconforto mas que também não passem despercebidos.

Mas talvez o que há de mais revolucionário no livro, e que também acaba por causar, inicialmente, um certo estranhamento ao leitor acostumado com narrativas lineares de um só narrador, é exatamente a ausência de cronologia fixa e a inovação na forma de narrar. As Meninas é um romance psicológico em que a narrativa segue o modelo do fluxo de consciência, tendo poucos fatos concretos. A partir da alternância dos pensamentos de cada uma das três meninas, as verdadeiras narradoras, a história vai se apresentando sempre de uma perspectiva diferente. Quando o foco está na consciência de Lorena, a linguagem é mais pausada, fantasiosa e poética. Já quando Lia está em cena, o texto se transforma em algo mais racional, lógico, pé no chão. Os momentos de divagação de Ana Clara talvez sejam os mais difíceis de se compreender, já que, como se trata dos pensamentos de alguém sob o efeito de drogas, o texto aparece confuso, com frases sem fim, ausência de pontuação, palavras repetidas e a interpenetração de temas que parecem não ter sentido nenhum. Tudo de acordo com a personalidade de cada uma delas.

Uma bela, elegante e talentosa representante da mulher na literatura, muitas vezes comparada a Clarice Lispector pelo trabalho com o romance psicológico e o universo feminino, Lygia soube traçar no livro as linhas que delineiam a visão da interioridade feminina. As personagens, ricas e complexas, passam por situações como o amor, a angústia em relação ao sexo, a preocupação com o corpo e todo o tipo de questionamentos acerca da vida de uma mulher, nesse caso, jovens. Lygia deixa, literalmente, a alma de cada uma dessas meninas falar.

Lygia teve nessa publicação uma de suas maiores glórias, recebendo os prêmios Coelho Neto, da Academia Brasileira de Letras, o Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, e o de "Ficção", da Associação Paulista de Críticos de Arte. Anos depois, em 1996, o livro ganhou espaço no cinema com o mesmo nome: As Meninas.

Quase 40 anos depois, a atualidade do livro se mantém. Não somente nos temas que foram tabus em certo momento e causam discussões até hoje, mas também no fato de que a interioridade feminina é atual sempre, por nunca ter sido desvendada. Qualquer garota que tenha esse livro em mãos - e aceite o desafio de lê-lo - irá encontrar elementos, sejam eles quais forem, em diferentes quantidades com os quais irá se identificar. Qualquer uma irá sentir um pouco de si mesma em algum momento, em alguma frase, em algum pensamento. Lírica como Lorena, revolucionária como Lia ou confusa como Ana Clara, há sempre alguma delas em uma mulher.

4 comentários:

Bittencourt disse...

Sou suspeito, mas achei o texto muito bom. Favor produzir mais, pois blog tem que ser dinâmico.
Um beijo

duh disse...

eu concordo com o dinamismo citado acima, e fiquei com vontade de ler o livro.
=)

mozimmermann disse...

Luiza, isso me fêz recordar de uma teima com minha mãe quando discutíamos quem escreveu As Meninas eu dizia Clarice Lispector e ela, como uma Bittencourt legítima,dizia Ligya Fagundes Telles (é claro ela tinha sempre razão à respeito de livros).Até que a Rose comprou. Agora lendo seu artigo com certeza vou relê-lo. Parabéns, bjs...
Moreninha

Ana Clara disse...

Uau, Lu!

Fodaço

Se a Nani te der menos de 9, eu te ajudo a quebrar ela na porrada.